Elas conquistam seguidores, quebram estereótipos e mostram para as marcas que a vivência periférica engaja e vende
Nathaly Barbosa nasceu e cresceu entre duas comunidades do Rio de Janeiro: Rio das Pedras e Cidade de Deus. Hoje, acumula 247 mil seguidores no Instagram, onde é mais conhecida como Blogueira de Baixa Renda, ou simplesmente Blô. Ela começou a produzir conteúdo na internet em 2018 por incentivo dos amigos.
“Minha rotina era pegar muito BRT (ônibus de trânsito rápido) lotado, porque sempre morei na favela, sempre fui pobre, paupérrima. E aí comecei a reparar nos perfis super montados do Instagram: fotos editadas, viagens, carros, vidas perfeitas. Eu pensava: ‘Não é possível que ninguém fale sobre a minha realidade aqui’”, lembra.
A vivência na periferia foi central em sua produção de conteúdo nas redes sociais. “Como falar de Nathaly, pessoa física, sem falar de Blô, pessoa jurídica? Não tem como, porque está completamente conectado. Tudo é uma vertente da minha vivência, da minha experiência. A favela é onde nasci, cresci e me formei como pessoa”, reflete. De acordo com a pesquisa Creators da Favela, da Youpix, dos 20 milhões de criadores de conteúdo no Brasil, 1,5 milhão são da periferia.
Bruna Dias começou a produzir conteúdo em 2017, a partir do seu blog “Dias de Cacho”, que acabou se tornando o nome do seu perfil no Instagram, onde falava sobre sua transição capilar. Hoje, com quase 50 mil seguidores, ela passou a falar sobre outras pautas. “Abordo vários temas. Depois da transição, continuei falando sobre cabelo, mas também trouxe outros assuntos, como a minha vivência corporativa e como é a experiência de uma mulher preta periférica nesse ambiente”, conta.
Maria Eduarda, ou Stace Hills, como é conhecida, tem 473 mil seguidores no Instagram, e vive na zona norte do Rio de Janeiro. Em suas redes sociais, também compartilha sua vivência cotidiana, sempre com tom humorístico. “Nós, que vivemos em comunidades, enxergamos o mundo de um jeito diferente, e isso me deu muito embasamento para os meus vídeos, principalmente de crítica social sobre a forma como vejo o mundo”, diz.
Favela tem voz
“No passado, quando comecei, existia um medo de falar que vinha da favela ou da periferia. As pessoas achavam que o que vendia e fazia sucesso na internet eram coisas muito maquiadas, montadas. Havia também um receio de as empresas não contratarem alguém por ser de onde era”, afirma Blô. “Isso mudou graças a nós, criadores da favela, que fomos cortando capim, e mostrando que existem criadores falando de dentro desses locais. Que a favela compra, consome e movimenta.”
De acordo com uma pesquisa da Tendências Consultoria, metade da população brasileira pertencem às classes D e E, e um terço está na classe C. Ou seja, 80% estão nesta faixa, o que significa que boa parte do lucro de muitas marcas vem destas pessoas.
“Elas precisam entender que quem movimenta bilhões de reais por ano somos nós”, destaca Blô. “Hoje, o movimento se inverteu. Ser da favela virou legal, virou financeiramente bom. Criou-se até uma onda de pessoas querendo se conectar com esse lugar para gerar conteúdo”, afirma a Blogueira.
A produção de conteúdo para essas pessoas tornou-se uma forma de alcançar a autonomia financeira. Segundo a pesquisa da Youpix, 50% dos influenciadores têm metade ou toda a sua renda composta pela sua atuação na internet. Para além do retorno financeiro, a produção de conteúdo também é uma forma de se empoderar de sua vivência e enxergar valor na sua criação.
“Quando falamos de criação de conteúdo, estamos falando diretamente sobre comportamento e consumo. Trazer o olhar de quem muitas vezes não tem tantas oportunidades ou acessos pode diversificar a linguagem não só nas redes, mas também nas marcas, e contribuir para diversificar o mercado como um todo” , reflete Bruna.
Para Clarissa Crisóstomo, head de agências da Digital Favela, a produção de conteúdo é uma forma de validação pessoal e coletiva. “Quando são reconhecidas, isso traz uma força muito maior para o território, porque valida o trabalho, a arte, a cultura, a música, e mostra que esse conteúdo tem valor”, destaca.
Para o público periférico, em geral, o sucesso é uma conquista coletiva. “Quando alguém vence, não vence sozinho, mas em conjunto. Então, quando uma pessoa consegue avançar, ela abre caminho para levar outras. Isso é fundamental, porque não se trata só de criar e levar para fora do território, mas de subir outras pessoas que estão na mesma situação”, continua.
“Por isso, vejo essa produção de conteúdo como uma oportunidade real de mudança de realidade financeira, não apenas de uma pessoa, mas de um núcleo familiar inteiro. Antes, um influenciador precisava passar 3, 4 horas no trânsito para chegar ao centro de uma capital e trabalhar para receber R$1.320 por mês. Hoje, esse mesmo influenciador consegue ficar em casa produzindo conteúdo sobre a própria realidade e ajudando outras pessoas do mesmo território a criarem conteúdo sobre suas vivências”, afirma Clarissa.
Matéria publicada pelo Meio & Mensagem.


